Mulheres brasileiras na Irlanda: como nos sentimos em relação a segurança e assédio

Foto: Patricia Lacerda

De vez em quando um caso de assédio ou estupro vem a tona e as pessoas começam a falar sobre isso. Achei importante aproveitar o momento pra falar sobre um dos motivos que me faz querer morar aqui e nao voltar para o Brasil.

Eu nao sei a experiência de todas as mulheres aqui na Irlanda (por isso perguntei a duas amigas e o depoimento delas esta aqui no final do post), mas por mim posso dizer que é libertador poder andar na rua a qualquer hora do dia e com qualquer tipo de roupa e não ter nenhum olhar malicioso pra cima de voce, nenhum comentário ridículo de algum nojento que se acha no direito. Poder andar sozinha as 2 da manhã e nao me sentir em perigo e ameaçada só por ser mulher. Isso não tem preço!

A segurança é realmente um fator muito forte que nao me faz querer voltar para o Brasil. Eu sempre vivi com medo la e aqui eu nao sinto isso. Obvio que aqui nao é o paraiso, tem crimes sim, em escala muito menor, e os homens nao sao treinados desde pequenos pra mexer com mulher a rua. Quantas vezes ja vi meninas andando com roupas super curtas, e ao observar os homens que estavam ao redor, nenhum sequer olhou para o corpo da menina. Acho simplesmente ridiculo a cultura brasileira nesse aspecto: pode mexer, assoviar, estuprar, e quando acontece, a mulher é maluca, exagerada, feminazi, ta mentindo, tava usando roupa curta, devia estar em casa…

No meu caso, nunca passei por nenhuma situacao de assédio aqui. Comentei isso no Facebook e minhas amigas do Brasil responderam coisas como ‘nossa que sonho’, ‘tao diferente daqui’, e eu sinto muito pelas minhas amigas e mulheres da minha familia que conhecem apenas aquela realidade, queria que elas tivessem força de vontade o suficiente pra ir embora e perceber que voce nao precisa andar com medo ou aguentar comentario nojento na rua, que elas podem viver num lugar onde podem andar na rua em paz. Porque apesar dos protestos, de tanto a gente falar, isso nao vai mudar tao cedo. Para as proximas geracoes talvez (apesar de que eu nao acredito), mas enquanto voce viver, deveria ter paz e nao medo. MAES, ensinem os seus filhos a respeitarem as mulheres por favor, que tipo de homens nossa sociedade esta criando?

Como nem todo mundo tem a mesma experiencia, perguntei no Facebook o que as meninas achavam, como elas se sentem aqui (seguras? ou nem tanto?) e aqui estao os comentarios de duas delas:

Barbara, 28 anos, do blog Barbaridades:

”No meu primeiro ano aqui um cara mexeu comigo na Boots do Jervis. Eu tava usando fone de ouvido e ele perguntou de onde eu era – eu não respondi. Aí ele perguntou de novo, eu disse “Brazil” e saí andando. Ele veio atrás de mim e continuou falando comigo, dizendo que eu era linda, bronzeada, isso e aquilo. Aí tirei o fone e falei algo do tipo “I’m not talking to you”. Ele me xingou e mandou eu voltar pro Brasil.

Pensando bem hoje, eu deveria não só não ter respondido como chamado algum funcionário pra falar que aquele cara tava me assediando, mas a gente nunca pensa nisso nessas horas. Fora essa situação, nunca aconteceu nada mais grave, mas sei que aqui também rola assédio, infelizmente.”

Maria*, 29 anos:

”Eu me sinto relativamente segura aqui. Mas ainda tomo alguns cuidados que tomava no Brasil. Se eu vou voltar sozinha a noite de alguma festa, pub etc eu pego táxi. Mas no dia a dia me sinto bem segura, inclusive em outros países.

No entanto tive uma má experiência aqui no meu primeiro emprego e tive que abandonar com 2 dias. Eu ia trabalhar pra um casal de indianos e no segundo dia, como eu tinha que tirar meu tênis pra entrar na casa, algumas das minhas tatuagens ficaram a mostra – uma escrito família e outra uma parte da Bíblia, então enquanto as crianças dormiam o pai puxou assunto sobre as tatuagens, perguntando significado delas e eu expliquei. Logo depois ele começou a dizer que elas eram muito sexy assim como eu. Não tive mais reação, apenas fiquei muda e queria ir embora dali. O pai então percebeu o clima que ficou e pediu pra que eu saísse da sala. Passei o dia enojada e querendo ir embora. Ele chegou mais cedo neste dia e mesmo assim não me liberou. Qdo deu meu horário eu apenas sai sem sequer avisar e fui embora. Mandei mensagem pra mãe dizendo que não voltaria mais pois tinha conseguido algo melhor. Não contei o que aconteceu por medo de não acreditar em mim.

Desde então, infelizmente, tenho asco de indianos. Fiquei por semanas pensando na cara dele e nas coisas que ele disse. Mas acho que isso é muito da cultura deles. Na Índia a mulher não é respeitada então eu levo isso como um caso a parte. Não acho que faz parte da cultura deles aqui.”

*Nome trocado para preservar a privacidade.

Pelo que eu tenho visto aqui nesses 2 anos e pouco, a grande maioria dos casos de assédio estao relacionados a emprego, principalmente babysitter, au pair e cleaner. Experimente colocar um anuncio oferecendo seu trabalho de baba ou limpeza em sites como o Gumtree, aposto que em em algumas horas vai receber varias mensagens e varias delas vao ser tipo ”te pago pra vir limpar a minha casa mas voce tem que fazer isso pelada” ou ”voce faz massagem sensual tambem?”.

By the way, essa semana teve uma manifestacao aqui em Dublin, contra a cultura do estupro e violencia contra as mulheres, mais detalhes e fotos aqui.

Voce mora na Irlanda e tem outrso ponto de vista? Compartilha com a gente!

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